Data: 8/9/2010
Izabel Pimentel, a primeira brasileira a cruzar o Atlântico em navegação solo.
 
IMPRESSÕES DE VIAGEM


TRANSCRIÇÕES DE TEXTOS DA IZABEL

Uma visita ao veleiro da Marinha ‘Cisne Branco’

“Caminho devagar impressionada com o beleza e a quantidade de história que o oficial Gubio me conta.
Um peça me chama a atenção. Com brilho nos olhos o sargento Vekas fala: "O presente troféu simboliza a chama da vida, os rumos do mundo, a liberdade, a tenacidade e a força de dobrar os Oceanos; o labor, o árduo e prazeroso trabalho do navegador seja ele solitário ou não. Este troféu fica no rol de entrada do Navio Veleiro Cisne Branco - Embaixador do Brasil pelos mares do mundo. Uma forma de lembrar a todos que aqui estiveram, do valor, do amor e da dedicação que possui o Homem do Mar pela maravilhosa dedicação a arte de navegar. Esse troféu é oferecido ao campeão da competição náutica ‘Americas Sail’ pela American Sail International, na qual o Cisne Branco foi duas vezes campeão.”
Hoje tive o orgulho e o prazer de visitar o Veleiro da Marinha Brasileira ‘Cisne Branco’.
Aqui na Madeira não paro desde que cheguei. Muitos reparos no barco. Já mandei arrumar o pau de spi e fiz reparos em pequenas coisas do barco.
Sábado temos uma pequena regata aqui e o Petit Bateau estará presente.
Na chegada o Grupo Dom Pedro Hotels me ofereceu apoio e estou na maior mordomia.
Todos os competidores estão felizes. A Transat é mais que uma competição, é uma realização pessoal e uma aventura.
Amanha, Renato, responsável pelo barco do competidor Português Lobato, vai no meu barco tentar tirar uns problemas no leme. O leme está ainda muito duro e isso me deixa com dores nas mãos insuportáveis.
Do resto trabalhar, trabalhar e trabalhar.
Que o Cisne Branco, comandado pelo comandante Flávio Ferreira, tenha um belo regresso para casa.
Bons ventos.
Bel.”

Funchal, 24 de setembro de 2009.

Barcos concentrados para a largada da Mini-transat

“A entrada na vila foi emocionante. Cruzei com o Veleiro "Joshua", do velejador solitário francês Moitessier. Passei sob a ponte e logo me encontrava na vila. Radiante!
É verdade que para chegar neste ponto, minha teimosia ajudou bastante; mas o importante é que o Brasil tem uma representante na La Charente-Maritime/Bahia Transat 6,50.
Tivemos reuniões de segurança no mar, avisos gerais e fizemos algumas vistorias no barco, como VHF e salvatagem. Realizamos exame médico. Amanhã no final do dia termina a parte mais dura da inspeção no barco. Nada pode estar fora das conformidades.
Recebi as velas novas e a bolina. Quarta-feira tenho uma saída no mar e uma matéria programada com a TV francesa. Aproveitarei para mandar material para a TV brasileira.
Agora a sete dias da regata, a ansiedade aumenta. Tenho estudado a tática que adotarei na regata. Irei tentar dar o máximo. O meu barco, o Petit Bateau, está em ótimas condições, equipado e preparado para a regata.
Que os ventos me levem de volta para casa.
Não esqueçam da regata virtual. Crie seu barco e corra com a gente. Vamos ver quem chega primeiro: o Petit Bateau ou seu barquinho virtual.
Bel.”

La Rochelle, França, 6 de setembro de 2009.

O Petit Bateau praticamente pronto para a apresentação à Classe Mini

“No cais sentada a beira do meu barco faço os últimos reparos. A cada check list, novas coisas para fazer.
O tempo todo chega alguém sorrindo e dando os parabéns por participar da regata, ou pela minha travessia até aqui.
Hoje um rapaz simpático, François, me presenteou com uma garrafa de vinho.
Faltam dez dias. Sinto um frio na barriga. Amanhã vou para o Viex Port, centro de La Rochelle. Na sexta começa a apresentação dos barcos à Classe Mini.
Nossa, quantos adesivos! Petit Bateau teve muitos apoios e sem eles não estaríamos aqui.
Muito obrigada à Construflama, Churrasqueiras e Lareiras; Marina Porto Imperial; Holt-Nautos; Internacional Tintas; Nob Multisports; La Fille; Pousada Corsário (Paraty e Búzios); Onixsat Telecom; Cousin Trestec; New Technology Motorsports; e Boteco 1.
Os competidores estão ansiosos e animados. O clima é de festa.
Meu barquinho ta super animado e lindinho. Velas novas, bolina de carbono, cabos coloridos, tudo revisado e testado.
Alguns barcos tiveram problemas esses dias, como roubo das velas e um que caiu da carreta. Mas estarão presentes na regata.
Meu amigo Espanhol ficou mesmo de fora. Triste. Já passei por isso
Agora é esperar e fazer uma bela regata.
Bel.”

Porto de La Rochelle, Golfo de Biscaia, França, 2 de setembro de 2009.

Cor de rosa

Eu nunca tive um diário rosa.
Fui criada descalça, brincando de queimado. Freqüentando o Maracanã, flamenguista doente. Um dia meu pai cortou meu cabelo bem curtinho. Joãozinho.
Me olhava no espelho. Eu sempre gostei de me olhar e naquela imagem magrinha, não via a Bel selvagem que corria com seus cabelos sempre longos e despenteados.
Nunca ganhei um diário rosa. Sempre estudei muito. Lia livros e livros, mas não escrevia.
Também nunca ganhei presentes rosas. Acho que as pessoas não me viam como uma menina delicada.
Eu não devia ser uma menina delicada. Mas eu era uma menina delicada. Às vezes o papel de parede esconde uma bela parede.
Eu gostava de dançar, inventava coreografias dos temas de novela. Mas não aprendi a dançar.
Um dia fui a um forró com o namorado, ele desistiu de dançar comigo e foi dançar com uma bela morena que mexia tudo. Ele apenas me olhava e ria. Não briguei com ele. Eu sou realmente ruim no salão.
Meu pai sempre deu muitas bonecas; e até os treze anos brinquei com elas. Como gostava de fazer roupinhas! Era o que mais gostava de fazer.
Um dia eu fiz um vestido de princesa para ela. E era rosa.
Nunca fui convidada para uma festa de quinze anos e nem tive festa.
Nunca me imaginei casando na igreja e fui convidada a poucos casamentos. Até hoje só fui a 4.
E fui convidada a 6.
Não devo ter o perfil mulherzinha. Mas tive muitos namorados. Sempre tenho um amor. Sempre tenho amores.
Um dia estava no avião e uma bela mulher sentou ao meu lado. Naquele dia me sentia tão mal!
A mulher estava perfeita. Linda. Um lindo papel de parede. E eu o oposto. Meus pés calçam um par de sandálias havaianas.
Mas o meu pavor de avião me fez conversar com ela. O tempo passou rápido, pois eu sempre falei mais do que devia. Ela tinha um sonho. Largar tudo e ir para Vancouver.
Um dia ela me mandou um e-mail dizendo que teve coragem e partiu; e agradeceu a mim.
Nesse dia me vesti de rosa.
Caminhando no píer, à beira do mar. Eu vi o sol partir e a lua nascer.
No reflexo pude me ver. Realmente um lindo papel de parede.
Bel.’’

Sempre partindo

“O céu ta cinza. O trem passa rápido, mas dá para observar a beleza do lugar. Mas uma vez parto.
Mas uma vez digo até breve. Mas não sei o dia que voltarei ou se voltarei.
Sempre que me sinto presa me dá falta de ar. Fico estranha. Isso é síndrome de pânico. É o stress. Tento pensar em outras coisas.
Estou escutando Caetano Veloso e ele diz: "Se a gente ama, claro que a gente cuida..." Será que cuido de quem eu amo?
Vivo partindo. Minha vida é uma eterna partida. Quantas vezes voltei para casa e quando chego, no peito trago a saudade.
Mas muitas vezes quem eu espero encontrar já partiu.
Partiu em busca de outro amor, partiu, pois o destino o levou, partiu porque na espera, na longa espera, na frente do mar, a maré o levou.
"Você não me ensinou a te esquecer..."
E o vazio invade meu peito. Sofro, choro, mas não aprendo.
É uma nova manhã. Arrumo uma sempre pequena mala. E parto.
Hoje sigo para La Rochelle. Tenho um barco para arrumar, um médico, e...
"Janelas e portas irão se abrir para ver você chegar..." Um sorriso.
"Você só deseja agora voltar para sua gente..."
O trem ta cheio. Os olhos se enchem de lágrimas. Ponho os óculos escuros e tento esconder meu olhar.
O céu ta cinza. O trem passa rápido...
O ar me falta...
Olho em volta. O trem ta cheio. Um jovem lê um livro, homens lêem jornais, uma francesa viaja em seu mp3, alguns estudam e outros dormem.
Alain, com seus belos olhos azuis, me disse: "Volta logo". O trem passa rápido e a distância entre a gente aumenta. E aumenta...
Muitas plantações de uva. Pequenas vilas antigas.
O trem passa rápido, mas dá para ver a beleza do lugar.
Ele apesar de fazer muito barulho é silencioso. Ninguém fala nada. Ninguém olha para o lado. Nenhuma paquera. Nenhum discurso.
O céu ta cinza... O ar me falta...
Minha mente não pára, não pára.
Um rapaz pede o bilhete, abro a agenda e deixo cair uns postais. Nossa! Já faz três meses que os comprei e não enviei.
Sou péssima para isso. É tão bom receber uma lembrança.
Um bela plantação de girassóis me distrai. Queria tirar uma foto, mas o trem insiste em passar rápido. Tudo passa tão rápido. Muito rápido... Os girassóis estão virados para baixo.
"Onde está você agora..."
O céu tá cinza... O trem passa rápido... O ar me falta...
Bel.”

Viagem de trem entre Sète e La Rochelle.

Impressões sobre a França

“Agora na França está fazendo bastante calor. O verão chegou. E com ele também um ar mais alegre. Passei pelas ruas de La Rochelle e senti uma energia diferente. Com pouca roupa e uma cor mais dourada o povo estampa um ar mais feliz. O Petit Bateau fica agora em La Rochelle. A viagem de Douarnenez para La Rochelle foi tranqüila e com pouco vento. Fiz uma parada em Lorient, pois estava com uma jornalista a bordo.
A Julie Bourgois, da revista "Voiles et Voiliers", fez 24 h comigo. (Quinta-feira, dia 25). Ela adorou. No início fiquei preocupada, pois o barco é muito pequeno. Mas Júlia e eu nos demos super bem e a viagem foi especial.
De Lorient segui sozinha até La Rochelle. No caminho o telefone tocou. Era meu novo amigo espanhol, o Juan Carlos. Ele comprou o proto que ganhou a última transat e vem com tudo para ser uns dos favoritos, pois tem no currículo muitas America's Cup. Ligou avisando que está fazendo as milhas qualificatórias. Desejo boa sorte.
Agora falta pouco para a Transat 6.50. Setembro, dia 13, é "la Dèpart"(a partida). E vamos que vamos. Estou muito animada.
Do resto aguardando que os lemes, velas e bolinas fiquem prontos para testar o barco. O Petit Bateau no dia 15 vai para o seco onde receberá mais alguns reparos. Em tempo: A Cousin Trestec (Brasimpex Representações e Serviços Ltda.), enviou os cabos novos para colocar nas velas.
Se tudo estiver pronto até o dia 25 sigo para fazer mais uma regata, a Transgascogne. Se, não, só em setembro.
A Transat 6.50 é mais que uma competição para mim. É a volta para a casa.
Que os bons ventos me levem a Salvador.
Bel.”

Impressões logo após a travessia de Douarnenez a La Rochelle.
 
 

 
 
Copyright: © Izabel Pimentel - Todos os direitos reservados.