INÍCIO DA SEGUNDA TRAVESSIA
Izabel, pilotando o “Petit Bateau”, inicia hoje a sua volta ao Brasil
Sète, França, 1 de novembro de 2007. 11h00 (08h00 em Brasília).
Da cidade de Sète, na costa francesa do Mar Mediterrâneo, a Izabel zarpou na manhã de hoje, às 11h00, rumo ao Brasil. Ela vem pilotando o barco brasileiro Petit Bateau, que passou por uma reforma geral. A Izabel está bem equipada em termos de documentação da viagem. Comprou uma filmadora, uma câmara fotográfica e um note book.
José Geraldo Pimentel
Sète, França
Boletim NR 01, 02/11/2007 – 19:40 (16:40 em Brasília).
“Isabel saiu de Sète dia 01, ontem, no rumo do estreito de Gibraltar. O vento estava favorável de 25 nós, com previsão de 15/20 nós hoje, dia 2, e os dias seguintes. Eu acho que a primeira noite foi um pouco agitada na passagem do cabo Creus, "o cabo Horn do Mediterrâneo". O barco foi completamente revistado e reforçado: fibra de carbono nas caixas de bolinas, no poço de quilha, no fundo do cockpit; cabos de mastro novos, pau de spi arrumado, pintura anti deslizante no convés nova; velas novas, circuito elétrico renovado, pilotos automáticos funcionando... Izabel estava muita animada para partir com o "Petit Bateau" pronto, finalmente! Ela me confiou que não irá parar antes do Arquipélago de Cabo Verde, se não precisar.
Chantier Naval Rive Sud. (Estaleiro que fez os reparos no barco).
Alain Borsotti”
Izabel vai deixando o Mar Mediterrâneo
Boletim NR 02, 06/11/2007 - 08:33 (Horário de Brasília).
Izabel aproxima-se do estreito de Gibraltar. Neste momento acabara de fazer uma parada em Alicante, Espanha, para uma noite de descanso. A viagem tem transcorrido sem atropelos, com um desenvolvimento relativamente razoável, de cerca de 13 nós. As velas novas têm feito a diferença, melhorando consideravelmente a performance do barco. Mas falta aquela ‘paixão que despertava o Arnaud 1’, seu barco francês. O Petit Bateau mesmo depois de um regime alimentar, continua com excesso de peso. Ganhou um banho de butique, mas não perdeu o jeitão de criança gordinha. Mas um menino valente. Na regata Transgascogne, embora fazendo água pelos quatros cantos, chegou ao final, deixando oito concorrentes pelo caminho, tendo quatro deles virado de cabeça para baixo. ‘Isso conta ponto!’ Pondera o brasileirinho. A Izabel olha para o seu patinho feio com um leve sorriso, mas não está satisfeita. ‘É preciso voar’! Lembra. A convivência ainda não é de confiança absoluta. Tem-se que dar tempo ao tempo!
Ela segue viagem amanhã por volta das 07h30. Cruzará o estreito de Gibraltar e ganhará o oceano Atlântico. Seguirá uma rota um pouco afastada da costa da África, com menos fluxo de navios, e parando nos Arquipélagos das Canárias e Cabo Verde; daí iniciando a travessia em direção ao Arquipélago Fernando de Noronha.
Izabel chega às Ilhas Canárias
Boletim NR 03, Arquipélago das Canárias, 17/11/2007 – 13:20 (Horário de Brasília).
Saída - Sète, França - Posição: 43º 24’ 07.00” N – 3º 41’ 46.78” L
1.ª Parada - Alicante, Espanha - Posição: 38º 20’ 44.80” N – 0º 28’ 59.91” W
2.º Parada - Ilha Lanzarote, Porto Calero, Arq. das Canárias – Posição:28º 54’ 59.78” N – 13º 42’ 19.26” W
De Sète o amigo Alain enviara este e-mail (dia 11/11): “Izabel me ligou a última vez de Alicante. O vento está fraco, mas favorável. Acho que ela vai tentar ir o mais rápido possível para as Ilhas Canárias.” Esta tinha sido a última notícia da Izabel. Ela, antes, tão logo chegara na costa da Espanha, numa localidade próxima de Alicante, na manhã do dia 6, informara que fizera uma parada para fazer algumas compras, reparar um pequeno problema no barco e mandar lavar suas roupas.
“- Só ficará pronta (roupa) amanhã às 10:30 horas.” Disse.
Depois de uma Lan House, onde pretendia passar um e-mail detalhando a viagem:
“- Aqui está muito frio.”
Mas não chegou a enviar o e-mail.
Ficamos sem notícias até hoje dia 17, quando às 13:20 horas a Izabel voltou a se comunicar diretamente do Arquipélago das Canárias. Ela acabara de desembarcar no Porto Calero, na Ilha Lanzarote. O porto Calero dista 73 mn da costa do Marrocos, no continente africano. De Alicante, Espanha, ao Porto Calero, percorreu 901,94 mn (1.670,4 Km).
Essa falta de comunicações tem dois motivos: primeiro era intenção da Izabel não divulgar essa sua segunda travessia do Atlântico em solitário, senão quando chegasse no Arquipélago Fernando de Noronha; segundo não leva rádio ou telefone via satélite para comunicação a longa distância, apenas o VHF e o EPIRB. O objetivo da travessia é trazer de volta o seu barco construído no Brasil, o Petit Bateau, que por questões técnicas fora impossibilitado de participar da regata Minitransat 6.5. O barco passou por uma reforma geral, que se não dá condições de participar de uma competição, garante uma navegabilidade tranqüila. Será um cruzeiro com paradas em diversos pontos, privilégio que uma regata não permite. Fez a primeira parada próxima a Alicante, na Espanha; esta segunda na Ilha Lanzarote. Ainda pretende fazer outra parada no Arquipélago das Canárias, para depois seguir para o Arquipélago de Cabo Verde; e daí atravessar o Atlântico, chegar no arquipélago Fernando de Noronha e aportar, finalmente, em Salvador.
De Sète, França, à Alicante, Espanha, percorreu 374,65 mn (693,84 km), que somadas às 901,94 mn (1.670,4 Km) desta segunda etapa, realizou até o momento um total de 1.276,59 mn (2.364,24 km).
A travessia do Estreito de Gibraltar
“- Atravessei o estreito de Gibraltar à noite. A correnteza estava muito forte, mas esperei o momento certo e fiz a travessia bem. O barco teve baixo rendimento. Muitas calmarias. Na verdade o vento foi fraco quase todos os dias. Salvo no Golfo de Lion, na França, no estreito de Gibraltar, pela manhã e um dia depois.”
Ela fala sobre o andamento da viagem.
“- Devo prosseguir viagem segunda ou terça-feira. Estou providenciando a lavagem de minhas roupas. Pretendo comprar metanol para o motor do gerador, pois não devo encontrá-lo no Arquipélago de Cabo Verde.”
A Izabel voltou a se comunicar por volta das 17:40 horas.
“- Vou mandar as fotos da viagem. Aqui tem Internet e é grátis. Nossa! Tem umas de golfinhos. Show. Aqui tá sem luz. Queimou o fusível. Mas tenho uma luz de socorro. Mas para ler, etc., não dá.”
Despede-se:
“- Vou jantar uma massa.”
Izabel faz sua última parada antes de dar início à segunda travessia do Atlântico
Boletim NR 04, Arquipélago de Cabo Verde, 01/12/2007 – 08:43 hs (Horário de Brasília).
Do arquipélago de Cabo Verde, a Izabel passou o seguinte e-mail:
“- Cheguei ontem a Cabo Verde. A viagem segue tranqüila. Nos 4 primeiros dias quase sem vento. Bel.”
Ela não especificou em que ilha do arquipélago parou. Da vez anterior que aportou no arquipélago, o fez na Ilha Boa Vista.
Essa é a última parada na costa da África, antes de iniciar a travessia do Atlântico, rumo ao Arquipélago Fernando de Noronha, e seguir para Salvador.
O barco Petit Bateau, depois da reforma geral a que foi submetido no estaleiro Chantier Naval Rive Sud, em Sète, na costa francesa do mar Mediterrâneo, tomou o gostinho pelo mar e parou de dar mico, entrando água pelos quatro cantos do costado. De mastro novo, pau de spi trocado, velas recém inauguradas e reforços em toda a estrutura, o barco ficou mais confiável, embora não adequado para competição, dado o excesso de peso com que foi construído. Mas é um barco navegável, ideal para cruzeiros. E é o que está acontecendo: “Uma Viagem pelos Sete Mares!”
Golfinhos encalhados em Cabo Verde
Boletim NR 05, Ilha Boa Vista, Arquipélago de Cabo Verde, 02/12/2007 – 18:30 hs (Horário de Brasília).
A Izabel voltou a se comunicar do Arquipélago de Cabo Verde. Desta vez informou onde desembarcou.
“- Estou no barco e com Internet à bordo. Muito chique. Estou na ilha de Boa Vista visitando meus amigos.”
A Izabel em sua passagem anterior por Boa Vista, encontrara um brasileiro morando na ilha e fizera amizade com dois ilhéus, Júnior e o Zan, que foram fundamentais em sua permanência no local, fazendo compras, ajudando-a na troca da adriça (cabo de vela) e na partida, ao rebocar o barco para fora da baía.
“- Vim comprar comida, pois tava difícil.”
Ela tranqüiliza sobre a viagem.
“- A viagem segue tranqüila. Espero chegar sem problemas a Fernando de Noronha.”
“- Tem usado a vela balão? Quis saber.
Na travessia das Canárias a Cabo Verde, ela enfrentara um período de calmaria.
“- Sim. Vou te mandar uma foto. Consegui tirar eu mesma. E (de) muitos golfinhos.
Um fenômeno aconteceu com a presença dos golfinhos.” Ela explica:
“- Aconteceu um lance muito curioso. Quando estava perto de chegar, um grupo de golfinhos apareceu. Isso representa sempre uma festa para mim. Mas senti algo triste. Eles não estavam felizes. Quando cheguei soube que mais de duzentos golfinhos morreram a menos de uma semana aqui. Fiquei boba. Eu senti a tristeza. Incrível.”
Os golfinhos haviam encalhado na praia.
“- Impressionante a sensibilidade da mulher.” Comenta.
Os ilhéus não encontraram explicação para o fenômeno.
“- Alguns dizem que eles seguem um golfinho chefe. Esse devia estar doente e foi pra terra; e os outros continuaram o seguindo. Outros falam que existe magnetismo, (ou) algo parecido, que acaba confundindo. Não se sabe ainda.”
O esforço para salvar os golfinhos não surtiu efeito.
“- Tentaram devolvê-los ao mar, mas eles voltavam e acabaram morrendo.”
Ela se reporta mais uma vez à recepção dos golfinhos em sua chegada a Cabo Verde.
“- Eu senti algo diferente nos golfinhos. É questão de energia. Não de saltos.”
A Izabel encerra a conversa prometendo que passará o Natal com a família.
“- Vou passar o Natal ai para ajudar na ceia. Levo presente para todos. O Ácmon que vai ganhar mais.”
O Ácmon é o único homem dos cinco sobrinhos.
“- Achei uma bola no meio do mar!” |