Izabel deixa Paraty rumo a La Rochelle
TERCEIRA TRAVESSIA DO ATLÂNTICO EM SOLITÁRIO
MENSAGEM DA IZABEL
“Competir ou simplesmente seguir?
O barco anda muito rápido. Por vezes passa dos treze nós. É dia, as ondas altas não assustam, mas fico com uma angústia no peito. As horas passam e a angústia aumenta e aumenta, até que não agüento mais e reduzo os panos. A velocidade cai, o barco se acalma.
Não escuto mais seus gritos, seus gemidos. Sento na proa e com as mãos na cabeça fecho os olhos e choro.
Os dias passam e a luta entre a velocidade e a minha mente continua. Durante o dia permaneço fora do barco e com todos os panos luto entre a angústia e a rapidez.
Mas a noite cai e a angústia vence. E com a alma cansada me rendo e volto a reduzir.
O canal 16 anuncia tempestade no mar. Mesmo assim sigo em frente. As ondas aumentam. O vento chega forte e contra. Já me encontro com os panos rizados. O barco sofre com os vôos sobre as ondas. Sem opção meu pequeno gato me observa por dentro da cabine. Ele quer sair, mas as ondas lavam o barco e na sua solidão, simplesmente me observa. Limpo os olhos já judiados da água do mar. Teimosa continuo lutando contra o vento e a corrente.
A tempestade passa e subo todos panos. O barco voa entre um mar agitado e a minha loucura, as minhas incertezas, as minhas verdades. Verdades que são só minhas.
Entro na cabine. Meu pequeno gato me faz carinho. O barco geme e geme. A velocidade é diretamente proporcional ao seu sofrimento e a minha angústia.
Não agüento e volto para o lado de fora até que a noite cai; e já cansada reduzo os panos.
Depois de 1500 milhas chego em terra.
Paro e chego à seguinte conclusão. Só tem um jeito de vencer: Aprender a linguagem do meu barco. Aprender que seu gemido não é de dor, mas de prazer. A velocidade numa competição é sinônimo de vitória.
Mas não é fácil aprender essa linguagem. Descobrir o limite do que é suportável. Até onde eu posso chegar? Onde eu quero chegar?
Hoje volto ao mar. Com um objetivo: Vencer. E descobrir que a vitória é muito mais que chegar na frente. É o sorriso de saber que você conseguiu chegar no seu limite. Venceu o medo, venceu a angústia; e se permitiu vencer.
Bel”
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